Prefácio
A menina que aprendeu a ficar de pé
Texto de abertura escrito pela Professora Mestra Cléo Melo para a obra autobiográfica de Marli Xavier.
Uma existência não é definida apenas pelo nascimento, mas pelas experiências que a moldam: os vínculos que construímos, as escolhas que fazemos, as perdas que enfrentamos e a coragem de seguir adiante. Tornar-se quem somos é um processo contínuo, marcado por desafios, recomeços e pela capacidade de atribuir novos significados ao que vivemos.
Algumas histórias precisam de tempo para encontrar sua voz. Permanecem guardadas até que quem as viveu consiga olhar para o passado não apenas pela dor, mas também pela compreensão. A história de Marli Xavier pertence a esse lugar.
Ao receber o convite para escrever o prefácio de A menina que aprendeu a ficar de pé, senti uma profunda responsabilidade e um grande privilégio. Este livro nasceu do encontro entre a menina que viveu experiências marcantes e a mulher que hoje consegue revisitá-las com serenidade, sensibilidade e novos significados.
Há 30 anos, como Diretora e Coordenadora do Curso de Terapia Familiar Sistêmica do CEFATEF – Centro de Formação e Estudos Terapêuticos da Família –, acompanho pessoas em seus processos de crescimento e reconstrução. Essa experiência me ensinou que ninguém é definido apenas pelas dificuldades que enfrentou, mas também pelos vínculos que construiu, pelas escolhas que fez e pela capacidade de reescrever a própria história.
Foi nesse contexto que conheci Marli. Em uma atividade do curso, convidei os alunos a revisitarem suas origens e suas histórias familiares. O que começou como uma proposta acadêmica transformou-se, para ela, em um profundo reencontro consigo mesma.
Naquele momento, reconheci uma história marcada por perdas precoces, responsabilidades assumidas cedo demais e muitos desafios. Mas também percebi uma mulher disposta a compreender seu passado sem permanecer aprisionada a ele. Talvez ali tenha surgido o impulso que mais tarde daria origem a este livro.
Saber que participei, ainda que de forma discreta, desse despertar é uma grande honra. Muitas pessoas contribuíram para a mulher que a Marli se tornou; a mim coube o privilégio de conhecer sua história pelas palavras que ela escolheu para compartilhá-la.
Ao ler estas páginas, reencontrei a mesma emoção que senti quando ouvi Marli narrar sua trajetória diante da turma. Havia verdade, coragem e humanidade em cada lembrança. O silêncio de quem a escutava revelava que todos compreendemos estar diante de uma história capaz de tocar profundamente o outro.
Existem narrativas que informam, outras que emocionam e algumas que permanecem conosco porque revelam a verdade de uma vida. Este livro pertence a esse último grupo. Sua força está na honestidade com que apresenta fragilidades, perdas, conquistas e recomeços.
A infância de Marli foi marcada por ausências muito cedo: a perda da mãe, a separação do pai e dos irmãos, a mudança de cidade e a necessidade de reconstruir vínculos. Ainda assim, este livro mostra que uma vida nunca é definida apenas pelo que lhe faltou, mas também pelo cuidado recebido, pelas pessoas que estenderam a mão e pelas oportunidades que permitiram seguir em frente.
É justamente por isso que sua história dialoga com os princípios da Terapia Narrativa de Michael White: ninguém pode ser reduzido aos acontecimentos mais difíceis de sua existência. O sofrimento faz parte da vida, mas não determina quem somos. Também nos definem os valores que preservamos, os vínculos que cultivamos e a capacidade de seguir construindo novos caminhos.
Marli não escreve apenas sobre o que viveu, mas sobre o significado que construiu a partir de cada experiência.
Sua trajetória revela uma menina que aprendeu cedo a cuidar, trabalhar e resistir, sem abrir mão da capacidade de sonhar. A formatura, vivida na ausência de pessoas que gostaria de ter ao seu lado, tornou-se um dos momentos mais simbólicos de sua caminhada. Entre a alegria da conquista e a dor das ausências, Marli descobriu que algumas vitórias precisam, antes de tudo, ser reconhecidas por nós mesmos.
Essa compreensão a acompanharia nas escolhas que vieram depois. A primeira gravidez, a decisão de partir e a coragem de deixar para trás uma realidade que já não lhe oferecia segurança marcaram um novo começo. Levava consigo muito mais do que uma mala: carregava sonhos, medos e a esperança de construir um futuro diferente para o filho que estava por nascer.
Nesse novo caminho encontrou pessoas que lhe ofereceram acolhimento e reconheceram seu valor. A maternidade ampliou esse processo de transformação, revelando uma mulher determinada a construir para os filhos aquilo que tantas vezes lhe faltou: segurança, presença e amor.
Houve também reencontros importantes, especialmente com suas irmãs, que lhe permitiram recuperar partes de sua história familiar. E, como acontece em toda existência, também vieram despedidas. A perda do pai e o fim de relações significativas deixaram marcas, mas ensinaram que seguir em frente não significa esquecer quem partiu, e sim honrar o que essas pessoas deixaram em nós.
Ao escrever este livro, Marli não revisita o passado para permanecer nele, mas para compreender como cada experiência participou da construção da mulher que se tornou. Essa é uma das maiores virtudes desta obra: transformar lembranças em compreensão e oferecer ao leitor a possibilidade de reconhecer, nas páginas desta autobiografia, fragmentos de sua própria vida.
Como profissional do desenvolvimento humano, sinto profunda alegria ao ver que uma narrativa compartilhada, anos atrás, em uma sala de aula do CEFATEF agora poderá alcançar muitos leitores. Talvez alguns encontrem aqui coragem para revisitar suas próprias histórias e descobrir que nenhuma vida deve ser definida apenas por seus momentos mais difíceis, mas também pela capacidade de recomeçar.
Marli, ao transformar sua vida em palavras, oferece muito mais do que uma autobiografia. Oferece um testemunho da capacidade humana de recomeçar, encontrar sentido nas experiências vividas e seguir em frente sem negar o próprio passado. A menina que um dia precisou aprender a ficar de pé encontra, hoje, uma mulher capaz de reconhecer sua força e compartilhá-la com generosidade.
Que cada leitor encontre nestas páginas não apenas uma história de superação, mas um convite à reflexão. Afinal, uma vida não é definida apenas pelo que nos acontece, e sim pela maneira como respondemos às circunstâncias e pelos significados que construímos ao longo do caminho.
Ao acompanhar esta obra, o leitor encontrará mais do que uma trajetória pessoal. Encontrará uma experiência profundamente humana, capaz de despertar lembranças, fortalecer esperanças e recordar que, mesmo diante das perdas, sempre existe a possibilidade de reconstrução.
A você, Marli, meu agradecimento pela confiança de compartilhar sua história e pela generosidade de permitir que ela alcançasse estas páginas. Sua caminhada nos lembra que a grandeza de uma vida está na forma como ela inspira e transforma outras vidas.
Que este livro seja também uma celebração da mulher que você é: sensível, corajosa e profundamente humana. Receba meu carinho, minha admiração e o desejo sincero de que sua história encontre muitos leitores, tocando cada um deles com a mesma verdade e sensibilidade com que um dia tocou a mim.
Professora Mestra Cléo Melo